Preservação das ruínas de São Miguel iniciou com atuação da Secretaria de Obras Públicas
Começo da estabilização foi feito de 1925 a 1927
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A preservação das ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, começou há cerca de cem anos, tendo a Secretaria de Obras Públicas (SOP) como protagonista inicial. Os primeiros escoramentos das paredes do templo foram realizados pela então Diretoria de Terras e Colonização da pasta.
“As histórias da SOP e do Rio Grande do Sul se entrelaçam. Ainda que este órgão do governo surja muitos anos depois da construção de São Miguel, a secretaria fez parte da trajetória do templo. Se hoje podemos nos orgulhar do sítio que é Patrimônio Cultural da Humanidade, é porque a SOP voltou seus olhos para lá e não permitiu que ele desaparecesse”, afirma a secretária de Obras Públicas, Izabel Matte.
Neste mês, o Rio Grande do Sul celebra os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis em seu território. A data lembra a primeira missa conduzida pelo padre Roque Gonzales às margens do rio Uruguai, em 1626. A partir dali se desenvolveram as reduções no Estado, povoados fundados pelos padres da Companhia de Jesus para catequização de indígenas. Entre eles, São Miguel, atualmente o mais conservado.
Há um século, porém, o cenário era diferente: a igreja estava abandonada e ruía aos poucos, correndo o risco de desabar completamente, como ocorrera com outros prédios do entorno. Até a década de 1920, a deterioração foi grande. Era um somatório de causas: o desgaste natural do material utilizado, a ação da natureza que tomou conta das instalações, os sistemas construtivos mais propensos a danos e as pessoas que retiravam materiais para usar em suas próprias obras e faziam escavações a procura de tesouros dos jesuítas, como ouro e relíquias.
Em relatórios, a Diretoria de Terras e Colonização, que fazia a administração fundiária do Estado, ou seja, cuidava de como seria ocupado o território, informou ao governo gaúcho a situação da redução de São Miguel. Isso levou o governo a declarar o sítio como “lugar histórico”, isto é, que era representativo da formação do povo gaúcho.
Obras de preservação
A SOP ficou responsável, então, pelos primeiros trabalhos de proteção ao patrimônio. Uma das medidas iniciais foi o envio de um zelador. Em 24 de janeiro de 1924, o jornal Correio do Povo noticiava:
O dr. Ildefonso Soares Pinto, secretário das Obras Públicas do Estado, quando esteve, há pouco, em visita à vila de Santo Ângelo, autorizou o chefe da Comissão de Terras de Santa Rosa, dr. João de Abreu Dahne, a destacar em São Miguel um empregado da referida comissão, ao qual fica afetada a conservação das ruínas ali existentes e que são o testemunho histórico da civilização que floresceu em épocas remotas. As ruínas de São Miguel vão ser cuidadas por um zelador, que terá a seu cargo limpar o mato que as circunda, por forma a poderem ser administradas pelos inúmeros visitantes que de toda a parte ali acorrem.
Entre 1925 e 1927, a diretoria executou as intervenções mais urgentes para proteger a estrutura. Utilizaram-se trilhos de trem para estabilizar a janela central e os vãos de acesso da fachada principal, as paredes do pórtico. Na torre, que estava se partindo ao meio, os trilhos foram usados para, junto com vergalhões de ferro, fazer a amarração da estrutura. Na parte interna da igreja, escoraram-se os arcos. Além disso, a SOP cercou o local e destacou um vigilante para prevenir vandalismos, como os nomes de visitantes inscritos nas pedras.
No relatório de trabalhos da diretoria, em 1927, era dito:
Os trabalhos são delicados, difíceis mesmo. A retirada das pedras desviadas pela ação do tempo e reposição nos lugares respectivos, é, por vezes, arriscada. E todos os trabalhos reclamam carinho dos operários. A princípio, estiveram confiados ao pedreiro Baptista de Almeida, e, nos últimos meses, o têm estado ao pedreiro Alexandre Jacintho, morador no local há muitos anos, cheio de interesse pela boa execução. A amarração com ferro da torre fendida e desaprumada está quase ultimada, e assim também o escoramento de numerosos arcos, vergas de portas e janelas, e paredes.
A obra estava alinhada com os conceitos mais modernos de preservação do patrimônio na época. Os princípios eram não derrubar o que restava, não reconstruir o que se perdeu, mas proteger e conservar o que ainda estava de pé. Utilizou-se mão de obra local, visando qualificá-la para atuar em possíveis intervenções posteriores.
A redução de São Miguel Arcanjo
O sítio de São Miguel Arcanjo foi um dos sete instalados no atual território do Rio Grande do Sul, chamados Sete Povos das Missões. Fundado em 1687, São Miguel servia à catequização dos guaranis pelos jesuítas, além de ser uma forma dos indígenas escaparem dos bandeirantes que buscavam escravizá-los.
A construção da igreja iniciou-se, possivelmente, entre 1729 e 1735, sendo realizada em etapas e concluída entre 1744 e 1747. O projeto era do arquiteto italiano Gian Battista Primoli, inspirado nas ideias mais recentes do barroco em seu país natal no século 18. As paredes eram grossas, feitas de pedra e barro, unidas somente por argila, o que exigia mão de obra de bom nível.
A redução teve uma trajetória conturbada. Tratados assinados entre Portugal e Espanha, que trocavam a posse das terras, fizeram os indígenas saírem e voltarem para o local em diferentes momentos. Após a derrota dos indígenas na Guerra Guaranítica, que ocorreu entre 1753 e 1756, e a expulsão dos jesuítas, em 1768, o sítio foi sendo, aos poucos, abandonado. A população diminuiu de quase 4,6 mil habitantes no fim do século 17 para 600 em 1822.
A igreja pegou fogo em 1756 e 1789. Um novo conflito entre Portugal e Espanha, em 1801, resultou na conquista definitiva das terras pelos portugueses. Por fim, em 1828, tropas lideradas por Fructuoso Rivera, que posteriormente viria a ser o primeiro presidente do Uruguai, saquearam as igrejas dos Sete Povos e levaram estátuas, imagens de santos, ornamentos, sinos e animais. Os últimos indígenas se dispersaram. Desabitadas, as construções de São Miguel decaíram em ritmo acelerado. Viajantes informaram que, em meados do século 19, as colunas já estavam desaprumadas. Em 1886, o pórtico desabou ao ser atingido por um raio.
Após os anos de abandono e o trabalho da SOP, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), tombou o sítio, administrando e cuidando do local até hoje. Ao longo do tempo, novas intervenções foram sendo realizadas. Inicialmente, o órgão executou ações pontuais de manutenção, mas, desde 1982, o trabalho de salvaguarda é permanente. Em 1983, a Unesco declarou São Miguel Patrimônio Cultural da Humanidade, sendo o único bem cultural no sul do Brasil com esse título.
Papéis da SOP ao longo dos anos
Uma das primeiras secretarias do Estado, junto à do Interior e Fazenda, a SOP tem 136 anos. Durante esse tempo, teve funções muito diversas. Além da administração fundiária executada pela Diretoria de Terras e Colonização, foram responsabilidade da pasta, ao longo dos anos, funções como exploração de carvão mineral, fonte estratégica de energia quando a Primeira Guerra Mundial impedia importações, fiscalização de alimentos destinados à exportação, organização dos transportes fluvial e aeroviário e gestão e promoção do turismo estadual. Dentro da SOP, nasceram o Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer), a Fundação Metropolitana de Planejamento (Metroplan) e a Companhia Rio Grandense de Saneamento (Corsan).
“A Secretaria de Obras Públicas teve muitos papéis importantes ao longo dos anos. Não se restringiu às construções espalhadas por todo o Rio Grande do Sul, mas se envolveu em vários assuntos que afetam a vida dos gaúchos. Em cada lugar, há um tanto de SOP”, diz Izabel.