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Preservação das ruínas de São Miguel iniciou com atuação da Secretaria de Obras Públicas

Começo da estabilização foi feito de 1925 a 1927

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Fotografia aérea da Igreja de São Miguel Arcanjo, localizada em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. É uma construção histórica em ruínas feita de pedras avermelhadas, localizada em uma área ampla e aberta coberta por grama verde. A estrutura principal apresenta uma fachada parcialmente preservada, com paredes altas, janelas sem vidro e uma torre retangular à esquerda, com aberturas em arco. Parte do edifício não possui telhado, permitindo ver o interior vazio e as paredes internas desgastadas pelo tempo.
Ao redor da construção, há vestígios de outras estruturas menores também em ruínas, espalhadas pelo terreno. O espaço é cercado por áreas verdes e árvores, formando um contraste entre o vermelho das pedras e o verde da vegetação. Ao fundo, observa-se uma paisagem rural com campos agrícolas e algumas edificações distantes, sob um céu claro e azul.
As ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo são tombadas pelo IPHAN e consideradas Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco - Foto: Jacson Patrick Heck/SOP
Por Ariel Engster/ASCOM SOP

A preservação das ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, começou há cerca de cem anos, tendo a Secretaria de Obras Públicas (SOP) como protagonista inicial. Os primeiros escoramentos das paredes do templo foram realizados pela então Diretoria de Terras e Colonização da pasta. 

“As histórias da SOP e do Rio Grande do Sul se entrelaçam. Ainda que este órgão do governo surja muitos anos depois da construção de São Miguel, a secretaria fez parte da trajetória do templo. Se hoje podemos nos orgulhar do sítio que é Patrimônio Cultural da Humanidade, é porque a SOP voltou seus olhos para lá e não permitiu que ele desaparecesse”, afirma a secretária de Obras Públicas, Izabel Matte. 

Neste mês, o Rio Grande do Sul celebra os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis em seu território. A data lembra a primeira missa conduzida pelo padre Roque Gonzales às margens do rio Uruguai, em 1626. A partir dali se desenvolveram as reduções no Estado, povoados fundados pelos padres da Companhia de Jesus para catequização de indígenas. Entre eles, São Miguel, atualmente o mais conservado. 

Há um século, porém, o cenário era diferente: a igreja estava abandonada e ruía aos poucos, correndo o risco de desabar completamente, como ocorrera com outros prédios do entorno. Até a década de 1920, a deterioração foi grande. Era um somatório de causas: o desgaste natural do material utilizado, a ação da natureza que tomou conta das instalações, os sistemas construtivos mais propensos a danos e as pessoas que retiravam materiais para usar em suas próprias obras e faziam escavações a procura de tesouros dos jesuítas, como ouro e relíquias. 

Em relatórios, a Diretoria de Terras e Colonização, que fazia a administração fundiária do Estado, ou seja, cuidava de como seria ocupado o território, informou ao governo gaúcho a situação da redução de São Miguel. Isso levou o governo a declarar o sítio como “lugar histórico”, isto é, que era representativo da formação do povo gaúcho.

Fotografia antiga em preto e branco mostrando a fachada frontal da Igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. A construção é de pedra e está em ruínas. A estrutura principal ainda está parcialmente de pé, com uma torre à esquerda e o frontão central preservado, embora bastante deteriorado. As paredes apresentam grandes aberturas onde antes havia portas e janelas, sem qualquer cobertura de telhado.
A construção está coberta por vegetação, com plantas crescendo nas frestas das pedras, no topo das paredes e ao redor da base. À frente da igreja, o terreno está tomado por mato alto e irregular, reforçando o aspecto de abandono.
Ao fundo e nas laterais, árvores de médio porte aparecem envolvendo a estrutura. O céu está claro, mas pouco detalhado devido à exposição da fotografia.
A imagem apresenta sinais de envelhecimento, como bordas desgastadas, manchas e marcas. No canto superior direito há o número “68” escrito à mão, e na parte inferior direita aparece a assinatura “Avila”, indicando autoria ou registro da fotografia.
Vista frontal dos remanescentes da igreja de São Miguel Arcanjo no início do século 20, antes das obras realizadas pela SOP - Foto: Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul

Obras de preservação 

A SOP ficou responsável, então, pelos primeiros trabalhos de proteção ao patrimônio. Uma das medidas iniciais foi o envio de um zelador. Em 24 de janeiro de 1924, o jornal Correio do Povo noticiava: 

O dr. Ildefonso Soares Pinto, secretário das Obras Públicas do Estado, quando esteve, há pouco, em visita à vila de Santo Ângelo, autorizou o chefe da Comissão de Terras de Santa Rosa, dr. João de Abreu Dahne, a destacar em São Miguel um empregado da referida comissão, ao qual fica afetada a conservação das ruínas ali existentes e que são o testemunho histórico da civilização que floresceu em épocas remotas. As ruínas de São Miguel vão ser cuidadas por um zelador, que terá a seu cargo limpar o mato que as circunda, por forma a poderem ser administradas pelos inúmeros visitantes que de toda a parte ali acorrem. 

Entre 1925 e 1927, a diretoria executou as intervenções mais urgentes para proteger a estrutura. Utilizaram-se trilhos de trem para estabilizar a janela central e os vãos de acesso da fachada principal, as paredes do pórtico. Na torre, que estava se partindo ao meio, os trilhos foram usados para, junto com vergalhões de ferro, fazer a amarração da estrutura. Na parte interna da igreja, escoraram-se os arcos. Além disso, a SOP cercou o local e destacou um vigilante para prevenir vandalismos, como os nomes de visitantes inscritos nas pedras. 

No relatório de trabalhos da diretoria, em 1927, era dito: 

Os trabalhos são delicados, difíceis mesmo. A retirada das pedras desviadas pela ação do tempo e reposição nos lugares respectivos, é, por vezes, arriscada. E todos os trabalhos reclamam carinho dos operários. A princípio, estiveram confiados ao pedreiro Baptista de Almeida, e, nos últimos meses, o têm estado ao pedreiro Alexandre Jacintho, morador no local há muitos anos, cheio de interesse pela boa execução. A amarração com ferro da torre fendida e desaprumada está quase ultimada, e assim também o escoramento de numerosos arcos, vergas de portas e janelas, e paredes. 

A obra estava alinhada com os conceitos mais modernos de preservação do patrimônio na época. Os princípios eram não derrubar o que restava, não reconstruir o que se perdeu, mas proteger e conservar o que ainda estava de pé. Utilizou-se mão de obra local, visando qualificá-la para atuar em possíveis intervenções posteriores.

Imagem em tom monocromático esverdeado, mostrando as ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. É uma reprodução de um material impresso antigo. A construção aparece frontalmente, com paredes de pedra parcialmente de pé, mas bastante desgastadas e cobertas por vegetação. À esquerda, há uma torre com aberturas altas, com sinais de deterioração e plantas crescendo sobre a estrutura. A parte central apresenta a fachada principal com paredes grossas de alvenaria, sem telhado e com grandes aberturas onde antes havia portas e janelas.
O entorno da construção está tomado por vegetação alta e desordenada, com arbustos e mato cobrindo boa parte do terreno, dando aspecto de abandono. Não há pessoas visíveis. A imagem possui margens claras, típicas de uma página impressa.
No topo da imagem, há o texto: “Directoria de Terras e Colonisação – Relatorio annual de 1923”. Na parte inferior, lê-se: “‘São Miguel’ (Missões)” e “Ruinas do Templo monumental (fachada principal)”. É um registro documental histórico das ruínas antes de intervenções de conservação.
Em relatório de 1923, a Diretoria de Terras e Colonização mostrava o estado das ruínas na época - Foto: Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul

A redução de São Miguel Arcanjo 

O sítio de São Miguel Arcanjo foi um dos sete instalados no atual território do Rio Grande do Sul, chamados Sete Povos das Missões. Fundado em 1687, São Miguel servia à catequização dos guaranis pelos jesuítas, além de ser uma forma dos indígenas escaparem dos bandeirantes que buscavam escravizá-los. 

A construção da igreja iniciou-se, possivelmente, entre 1729 e 1735, sendo realizada em etapas e concluída entre 1744 e 1747. O projeto era do arquiteto italiano Gian Battista Primoli, inspirado nas ideias mais recentes do barroco em seu país natal no século 18. As paredes eram grossas, feitas de pedra e barro, unidas somente por argila, o que exigia mão de obra de bom nível. 

A redução teve uma trajetória conturbada. Tratados assinados entre Portugal e Espanha, que trocavam a posse das terras, fizeram os indígenas saírem e voltarem para o local em diferentes momentos. Após a derrota dos indígenas na Guerra Guaranítica, que ocorreu entre 1753 e 1756, e a expulsão dos jesuítas, em 1768, o sítio foi sendo, aos poucos, abandonado. A população diminuiu de quase 4,6 mil habitantes no fim do século 17 para 600 em 1822. 

A igreja pegou fogo em 1756 e 1789. Um novo conflito entre Portugal e Espanha, em 1801, resultou na conquista definitiva das terras pelos portugueses. Por fim, em 1828, tropas lideradas por Fructuoso Rivera, que posteriormente viria a ser o primeiro presidente do Uruguai, saquearam as igrejas dos Sete Povos e levaram estátuas, imagens de santos, ornamentos, sinos e animais. Os últimos indígenas se dispersaram. Desabitadas, as construções de São Miguel decaíram em ritmo acelerado. Viajantes informaram que, em meados do século 19, as colunas já estavam desaprumadas. Em 1886, o pórtico desabou ao ser atingido por um raio. 

Após os anos de abandono e o trabalho da SOP, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), tombou o sítio, administrando e cuidando do local até hoje. Ao longo do tempo, novas intervenções foram sendo realizadas. Inicialmente, o órgão executou ações pontuais de manutenção, mas, desde 1982, o trabalho de salvaguarda é permanente. Em 1983, a Unesco declarou São Miguel Patrimônio Cultural da Humanidade, sendo o único bem cultural no sul do Brasil com esse título.

Fotografia antiga em tom sépia mostrando as ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, vista em ângulo lateral. A estrutura apresenta paredes espessas feitas de pedra e parcialmente preservadas, com elementos arquitetônicos como colunas, arcos e bases ornamentadas ainda visíveis, apesar do desgaste.
A parte superior das paredes está bastante deteriorada, com pedras faltando e vegetação crescendo sobre a estrutura. Pequenas árvores e arbustos brotam no topo e nas frestas das paredes, indicando abandono prolongado. À esquerda, destaca-se uma torre ou volume mais alto, também parcialmente arruinado.
O entorno imediato da construção está coberto por vegetação alta e densa, incluindo arbustos e plantas rasteiras, que avançam até a base das paredes. À direita da imagem, há árvores de médio porte, algumas com galhos secos e sem folhas, contrastando com outras mais densas.
O terreno em primeiro plano é irregular e parcialmente limpo, com áreas de terra exposta. A imagem apresenta marcas típicas do tempo, como manchas e bordas desgastadas. No canto superior esquerdo aparece o número “68” escrito à mão, e no canto inferior esquerdo está a inscrição “Avila Foto”, indicando autoria da fotografia.
Antes da estabilização realizada pela SOP, a Igreja de São Miguel Arcanjo estava tomada pelo mato e correndo risco de desabar - Foto: Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul

 

Papéis da SOP ao longo dos anos 

Uma das primeiras secretarias do Estado, junto à do Interior e Fazenda, a SOP tem 136 anos. Durante esse tempo, teve funções muito diversas. Além da administração fundiária executada pela Diretoria de Terras e Colonização, foram responsabilidade da pasta, ao longo dos anos, funções como exploração de carvão mineral, fonte estratégica de energia quando a Primeira Guerra Mundial impedia importações, fiscalização de alimentos destinados à exportação, organização dos transportes fluvial e aeroviário e gestão e promoção do turismo estadual. Dentro da SOP, nasceram o Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer), a Fundação Metropolitana de Planejamento (Metroplan) e a Companhia Rio Grandense de Saneamento (Corsan). 

“A Secretaria de Obras Públicas teve muitos papéis importantes ao longo dos anos. Não se restringiu às construções espalhadas por todo o Rio Grande do Sul, mas se envolveu em vários assuntos que afetam a vida dos gaúchos. Em cada lugar, há um tanto de SOP”, diz Izabel. 

Fotografia antiga em preto e branco mostrando o amplo interior em ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, vista a partir do nível do solo. As paredes altas de pedra formam uma nave alongada, com fileiras de arcos nas laterais, parcialmente preservados. Ao fundo, observa-se uma parede frontal maciça, sem cobertura, com pequenas aberturas e sinais de deterioração.
O espaço interno está tomado por vegetação rasteira, pedras soltas e entulho, indicando abandono. Árvores cresceram dentro da estrutura, com galhos que se estendem sobre as paredes e parcialmente cobrem a vista do céu, criando áreas de sombra.
No centro da cena, há um grupo de pessoas posando para a fotografia, distribuídas ao longo do terreno irregular. Entre elas, aparecem adultos e crianças. Algumas pessoas estão montadas em cavalos, posicionados próximos às laterais da construção. Todos estão vestindo roupas características de época.
A fotografia apresenta marcas de desgaste, como manchas, dobras e pequenos rasgos nas bordas, evidenciando que se trata de um registro antigo e preservado ao longo do tempo.
Vista da nave central da Igreja da redução de São Miguel Arcanjo no início das obras realizadas pela SOP - Foto: Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul
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